Um desabafo
Como sei que nunca ninguém vai ler estas linhas, aproveito a inércia relativa à ideia de um blogue de comida para escrever uma pequena reflexão. Não é uma lamúria ou uma queixa, por mais que tivesse direito a fazê-lo. Apenas umas linhas para refletir, pensar um pouco no que tem sido a vida nestes últimos anos.
Estou claramente num ponto de reflexão e, quem sabe, de balanço. O caminho até aqui percorrido foi longo e algo conturbado, embora com muitas felicidades pelo meio. Não seria louco ao ponto de não olhar para esse lado da minha vida. Sou grato por ele, claro que sim.
O que me atormenta não é sobre nenhum "acontecer". Tenho a impressão que seremos patetas se acharmos que a vida são só "acontecimentos" externos sem qualquer tipo de intervenção nossa. Navegando todos em águas de incerto, "navegamos". Estamos lá, o sujeito subentendido, o marinheiro que gere o seu leme em todas as águas. Isto fica claro.
Tenho aprendido muito. Especialmente porque não é só o mar que pode ser tormentoso. Também a nossa alma se pode encher de um tormento tão obscuro que nos leva a duvidar de nós a cada instante. E o tormento pode por vezes ser uma tempestade dura e forte como uma chuva mansa num dia cinzento.
Não sei quantas decisões acertadas tomei na vida. E não consigo calcular as suas consequências e tão pouco as consequências de outras tantas que não tomei.
Terei tido, quem sabe se a coragem, de há uns anos ter decidido mudar de vida. Senti na época que era uma saída necessária, um momento novo e fresco numa rotina que começava a ser pesada. E foi novo e fresco durante um tempo. Renovei-me, tive a oportunidade de mudar de lugar, de rejuvenescer, conhecer pessoas novas e até o meu marido que me faz acreditar novamente no amor. Deixei outras coisas para trás que ainda me pesam no coração. E muito.
Deixei os meus pais de quem sinto muita falta. O nosso ponguinho. Os meus amigos. Os colegas de trabalho.
Fui em busca de algo que tive quase a certeza que não poderia encontrar lá. Juro que tentei. Tentei de várias maneiras, ao longo de seis anos, encontrar sentido e propósito na vida que levava. E não encontrei. Tive como resultado a melancolia e a tristeza. Penso que a minha família mais próxima, por saudade e conexão emocional, não conseguirá ver com a mesma clareza esta situação. Sei que foi algo apressado e atabalhoado, contudo, infelizmente, a única maneira de sair de um emprego do qual não gostava foi essa. E sendo muito honesto, precisava muito de sair da minha ilha. Precisava de uma vida num lugar onde me pudesse identificar mais, onde pudesse expandir os meus horizontes. E agora que escrevo estas linhas sinto que tive esse retorno. Especialmente a nível pessoal.
Então, porque me sinto tão pesado e triste? Porque me sinto tão culpado das minhas próprias decisões? Mais, porque o meu coração fica amargurado não obstante saber que tomei as decisões que podia com aquilo que tinha em cada momento? Que elos tenho de quebrar dentro de mim para ultrapassar esta tristeza e culpa que me atormentam? Que me tornam uma pessoa pesada que desiste de si próprio a cada instante?
Bem sei que os últimos três anos não foram nada fáceis. Os problemas sucederam-se. E quando achei que "as coisas" melhoravam, novos e mais sérios problemas foram surgindo. O pior de tudo, no final do ano passado. Que meses tão duros e cruéis. A vida consegue ser mesmo cruel. Voltei a fumar, de tão perdido que me senti. Larguei o interesse em perder peso.
Em final de outubro o tapete começou a ser me tirado dos pés. E desde aí doeu sempre bastante. Ainda dói. Talvez um dia consiga escrever sobre isso. Por enquanto ainda não.
Sei que é raro passar por esta vida em linha reta. Os "acontecimentos" fazem a nossa experiência de marinheiro. Talvez tenha só de me reconciliar com isso. Provavelmente tenho só de olhar para dentro e procurar ouvir o meu espírito. Não sei.
Na noite que acordo em sobressalto, todas as coisas são uma bola confusa e triste. Choro nas noites mas quando a aurora começa a romper o dia tudo se relativiza. Até ser noite novamente e ser atormentado por pesadelos e angústias que me fazem despertar. Não quero relativizar. Preciso de ser cirúrgico na forma de abordar as coisas. As mezinhas ajudam se a ferida mais profunda for tratada. Caso contrário serão sempre remendos. Talvez seja masoquista. Mas a minha natureza mais tempestuosa assim é.
Dou por terminado este breve desabafo. Preciso de tempo para acalmar o meu coração e voltar a ver a vida de frente. Por enquanto não sou capaz de tomar mais nenhuma decisão. Em relação a nada. Estou ainda demasiado assombrado por demasiados fantasmas. E, duvido, que eles alguma vez possam desaparecer. Seria um tolo se acreditasse que eles não apareceriam mais. Ou que não ficariam sempre por cá a pairar na parte de sombra que sou.
Pode ser que um dia faça de todas estas coisas alguma coisa. Ou não. A quem não ler isto, obrigado.
Com licença.
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